Décima edição do seminário reabilitação do estomizado discute a produção do cuidado ao paciente sob a ótica multidisciplinar

Estudantes dos cursos da área da saúde, enfermeiros e demais profissionais da saúde estiveram reunidos na Escola de Enfermagem da UFMG na última sexta-feira, 23 de junho, para o X Seminário Reabilitação do Estomizado: a produção do cuidado ao paciente estomizado sob a ótica multidisciplinar. O evento foi promovido pelos alunos do Curso de Especialização em Assistência de Enfermagem de Média e Alta Complexidade da Escola de Enfermagem da UFMG, por meio da especialidade Estomaterapia, coordenado pela professora Eline Lima Borges.

De acordo com Eline, o evento teve como objetivos desenvolver duas estratégias. A primeira é a de trazer a discussão acadêmica para as palestras – pelo seminário ter sido organizado pelos próprios estudantes da estomaterapia – fazendo com que o aluno, após sua formatura, quando se tornar um especialista, também possa organizar outros eventos para compartilhar experiências e conhecimento. Outra estratégia é a de reunir profissionais diversos e discutir a assistência prestada às pessoas com estomas. “Os pacientes estomizados são pessoas que passam por um procedimento invasivo e complexo que muda toda sua vida. Quando falamos em reabilitação do doente, é a dele voltar a ter uma vida próxima do que ele tinha antes da cirurgia, porque nunca será uma vida igual, assim além da pessoa, nós ainda temos que trabalhar a família dela. O que nós percebemos é que os profissionais de saúde, principalmente o enfermeiro, muitos ainda não têm essa sensibilidade e percepção a respeito do sofrimento dessas pessoas. Um dos nossos objetivos é trabalhar isso”, explicou Eline.

A professora enfatizou, ainda, a importância do envolvimento multidisciplinar para uma melhor abordagem do estomizado. “Para ter uma reabilitação mais rápida é preciso o envolvimento de todos os profissionais da saúde, sendo necessárias essas discussões acadêmicas, compartilhamentos de ideias e de opiniões. Sempre visando a reabilitação rápida para reduzir o sofrimento da pessoa que passa por esse tipo de cirurgia.”

O seminário contou com o apoio da Associação Mineira dos Ostomizados (AMOS); o presidente da associação, Silvano dos Reis Correa, esteve presente e destacou a importância do contato entre a EEUFMG e a AMOS. “A associação está precisando fazer esses laços de apoio, e não só com a Enfermagem, mas com os hospitais, com as clínicas, com os consultórios médicos de urologia e proctologia. Temos participado de alguns eventos dentro da Escola, principalmente com a professora Eline, e tem dado um resultado muito positivo”.

Hilma Nogueira da Gama, médica e coordenadora do serviço de coloproctologia do Hospital Madre Teresa/MG, ministrou a primeira palestra que abordou os tipos de estomas, as principais doenças e indicações em coloproctologia. Segundo ela, os principais tipos de estoma são a colostomia, onde o cólon (intestino grosso) é exteriorizado através da pele para ficar em contato com o meio externo e a ileostomia, onde o íleo (parte do intestino delgado) é exteriorizado. 

De acordo com a médica, algumas doenças podem ser causas da confecção do estoma e a coloproctologia é uma especialidade que estuda todos esses distúrbios que são localizados na região do ânus até a parte alta do intestino. “Existem outros tipos de estomas, decorrentes de doenças e situações específicas, como por exemplo, a traqueostomia, uma intervenção cirúrgica que consiste na abertura de um orifício na traquéia e na colocação de uma cânula para a passagem de ar. O foco desse evento é a confecção dos estomas de eliminação. Nesse grupo destaca-se a colostomia, abertura cirúrgica do cólon, com a finalidade de criar um ânus artificial para a eliminação das fezes”, esclareceu Hilma. 

A nutricionista e coordenadora do serviço de nutrição do Hospital Felício Rocho/MG, Lívia Siqueira Campos, falou sobre a questão nutricional no tratamento de pacientes estomizados e trouxe orientações para melhor qualidade de vida e socialização do paciente. “Inicialmente, se o paciente for nutrido, continuamos com o mesmo tratamento de um paciente normal, mas num pós-cirúrgico nós temos um cuidado maior, montamos uma dieta mais restritiva e depois evoluímos conforme a tolerância de cada paciente”, destacou Lívia.

Experiências do estomizado no contexto hospitalar
Com o objetivo de propor uma melhoria do serviço hospitalar ao paciente estomizado, foi realizada uma mesa-redonda onde cada convidado apresentou suas experiências em relação aos tratamentos e gerenciamentos envolvendo o estoma. A mesa foi composta pelos enfermeiros Ramon Araújo, Danielle Castilho, Mauro Ribeiro de Souza e Daniele Soares.

Ramon Araújo e Danielle Castilho, estudantes da Pós-Graduação Lato Sensu Enfermagem em Estomaterapia da EEUFMG que trabalham no Hospital Universitário Cassiano Antônio Morais – EBSERH-UFES em Vitória-ES, apresentaram suas experiências com pacientes com complicações no estoma e pele ao redor e a importância da intervenção do estomaterapeuta nessa área do conhecimento. Na oportunidade, apresentaram, ainda, a proposta de reeoganização da assistência ao paciente estomizada a ser implantada nesta instituição.

Daniele Soares, enfermeira e coordenadora dos Centros de Saúde de Itaúna, contou um pouco da experiência de viver com estoma e os aspectos psíquicos que um paciente pode ter. Segundo ela, o estomizado passa por várias vertentes e dificuldades com relação à estrutura psicológica nesse período: insegurança, medo, problema na socialização e atividades na vida diária. “Eu fiquei estomizada no período da gravidez por causa do parto e uma das dificuldades foi na atividade da vida diária. Tive uma dificuldade muito grande de amamentar, mas acho que o maior desafio foi aceitar aquele período. Isso é muito relacionado ao psicológico da pessoa, dela ser bem orientada, ter um bom acompanhamento, até aceitar e conseguir seguir com essa dificuldades”, revelou Daniele Soares.

O enfermeiro estomaterapeuta, referência técnica da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), Mauro Ribeiro de Souza, encerrou a mesa redonda debatendo sobre os desafios do SUS na atenção ao paciente estomizado. Segundo ele, um dos pontos é o de oferecer uma assistência ao paciente com uma equipe multiprofissional especializada no atendimento e com uma estrutura adequada. O outro aspecto é o de oferecer garantia ao paciente ao acesso a bolsas coletoras em quantidade suficiente e em qualidade para que o paciente possa melhorar sua qualidade de vida. “Atualmente a Secretaria Estadual de Saúde tem investido em capacitação para tentar resolver esses problemas e ampliar a rede de serviços, assim esperamos que a porcentagem dessas essas dificuldades diminuam”, explicou Mauro.

Mãe da Estomaterapia Mundial
A professora Eline Borges destacou que o evento também comemorou o aniversário de Norma Gill Thomson, reconhecida hoje como a primeira estomaterapeuta do mundo e considerada a “mãe da Estomaterapia Mundial”. No dia 26 de junho estaria completando 96 anos de vida. Tudo começou em agosto de 1954, quando Norma Gill Thomson entrou no Hospital Cleaveland Clinic, gravemente doente com retocolite ulcerativa, e tornou-se ileostomizada. A cirurgia foi realizada pelo seu médico Dr. Rupert Turnbull. Norma Gill passou a viver com a ileostomia, mas não se contentou em ficar em casa após sua reabilitação. Em 1958, Dr Turnbull convidou-a para atuar como técnica em estomas na reabilitação dos pacientes e assim, desenvolveu um trabalho incansável e precursor junto às pessoas ileostomizadas e colostomizadas. Em 1961, o programa de educação foi expandido por Norma Gill e Dr Turnbull, além de educar os pacientes que se submetiam a cirurgia geradora de estoma, criaram o programa de educação formal em estoma e reabilitação com o título de Terapeuta Enterostomal (ET) atribuído aos concluintes do programa. Posteriormente, essa área de conhecimento tornou-se uma das áreas de abrangência do Curso de Especialização Enfermagem em Estomaterapia que também contempla as áreas de lesão cutânea; lesões cutâneas.

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